Opinião: Porto Maravilha e Museu do Amanhã; Pão e Circo no Rio de Janeiro

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A Praça Mauá e o Museu do Amanhã
Às vésperas dos jogos Rio 2016, o micro-empresário Romildo Emanuel elabora para um portal um artigo de opinião sobre o Porto Maravilha. Terá o Museu do Amanhã atrapalhado o desenvolvimento do mercado de cruzeiros no porto do Rio de Janeiro? Confira a opinião de Romildo, baseada em sua experiência no porto e em dados históricos.

Arredores do terminal durante a última temporada
de cruzeiros
Quem passa hoje pela Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, nota uma grande construção branca, que lembra uma grande baleia ou talvez um inseto voador. O monumental prédio de arquitetura arrojada, que se projeta 400 metros em direção à Baía de Guanabara, na porção de terra conhecida como píer Mauá, foi finalizado no começo deste ano.

É uma das diversas obras que a prefeitura municipal carioca realizou ou ainda realiza tendo em visto os jogos olímpicos. Está incluída no grande plano de revitalização do centro e área portuária da cidade chamado “Porto Maravilha”, que pretende transformar toda a região, que hoje é periférica, perigosa e ocupada por habitações de baixo padrão. Encontra-se, (com exceção, talvez, da área comercial de ruas e avenidas famosas como a Rio Branco), em clara decadência. Trata-se de um grande museu à beira-mar, projetado pelo espanhol Santiago Calatrava, escultor, arquiteto, engenheiro e pintor responsável por grandes obras mundo afora, como o famoso Ciutat de les Arts i les Ciènces, de Valência na Espanha (que parece inclusive, emprestar traços ao parente carioca).

Uma das construções da Ciutat de les Arts i Cièncie, na Espanha
Orçado em inicialmente em R$ 130 milhões, e depois em R$ 290 milhões, este é o Museu do Amanhã, erguido sobre o malfadado píer Mauá, conhecido oficialmente (e exclusivamente oficialmente) como píer engenheiro Oscar Weinschenk. Bem próximo ao hoje centenário terminal de passageiros do porto do Rio de Janeiro, foi construído entre 1948 e 1949 para a Copa do Mundo de Futebol de 1950. Tinha como objetivo aumentar o cais de atracação do Porto do Rio de Janeiro para permitir, assim, a atracação de mais navios de passageiro na cidade.

Segundo o historiador Milton Teixeira, o píer foi idealizado para receber, os transatlânticos que eram então os maiores do mundo, o Queen Elizabeth e o Queen Mary, da Cunard Line. No entanto, como de praxe em território brasileiro, a obra não só atrasou, como mostrou-se controversa e desnecessária. Acabou nunca sendo usada com seu propósito inicial, mas chegou a receber navios como um terminal de carga por alguns anos antes de ser desativada e inutilizada.

Queen Mary de 1936. Governo carioca queria atrair maiores navios de
cruzeiro da época com o Píer Mauá, nos anos 1950.
Antes da obra faraônica do Museu do Amanhã, o píer vinha abrigando ocasionalmente shows e grandes eventos, e sendo utilizado como estacionamento para o agora Terminal de Cruzeiros do Rio de Janeiro. Administrado por uma concessionária privada chamada Píer Mauá, a instalação ocupa a mesma construção em que funcionava o terminal de passageiros em 1950, um prédio dos anos 1910, localizado à esquerda do píer.

Movimentando centenas de milhares de passageiros nas temporadas de verão (foram 500 mil em 2014/2015), o Píer Mauá é utilizado por navios de cruzeiro modernos, muito maiores que os transatlânticos dos anos 50, que transportam em média, mais de 3,000 passageiros cada. O maior problema enfrentado por estas embarcações quando visitam o Rio de Janeiro, além dos valores abusivos de taxas governamentais e operacionais, e da infraestrutura problemática, é a falta de espaço de atracação próximo ao prédio principal do Terminal na Praça Mauá, ponto que é a principal porta de entrada e saída do porto.

Quando mais de dois navios atracam na cidade simultaneamente, algo comum durante a alta temporada, é necessária a utilização de ônibus para a movimentação dos passageiros dentro do porto. Isso porque, o terceiro navio a atracar já no porto, já se localiza a cerca de 700 metros da entrada do porto, em área ocupada por armazéns de carga. O processo de entrar e sair da embarcação acaba cansativo, caro e demorado para o passageiro, que paga indiretamente pelo serviço de transporte interno.

Passageiros aguardam no sol em entrada improvisada no terminal,
no último mês de dezembro
Indústria volátil e mundial, a dos cruzeiros tem a facilidade de poder mover seus navios para qualquer lugar do mundo, desde que lhe convenha. Movimentando centenas de milhares de passageiros, que segundo estudo da organização especializada ABREMAR, deixam cerca de 200 reais cada no Rio de Janeiro, em gastos com transporte, compras e alimentação, os responsáveis pelos cruzeiros começaram a cobrar melhorias no porto do Rio de Janeiro para continuar operando na cidade.

A movimentação de passageiros gera não só receita direta para a cidade, mas também empregos para a região do porto, não só no próprio terminal de cruzeiros, mas também em diversos estabelecimentos voltados aos passageiros, como bares, estacionamentos e lojas de lembrancinhas. Como porto de embarque, o Rio de Janeiro teria potencial para ser ponto de partida de cruzeiros por todo o extenso litoral brasileiro, o que, ao longo dos anos, poderia até mesmo dobrar o número de passageiros passando pelo Píer Mauá.

A resposta do Governo do Rio de Janeiro aos apelos da industria dos navios de turismo, foi o anúncio da ampliação da área de atracação do cais próximo ao terminal, através de um píer, que avançaria em direção à Baía de Guanabara. Pasmem, um novo píer com formato diferente, que ficaria pronto para a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e custaria mais de R$ 220 milhões. Como em 50, também esperava-se que os navios de passageiro viessem em quantidade para o evento, algo que não se concretizou, assim como a obra.

Prédio do Museu do Amanhã visto de um navio de cruzeiro
Após consumir R$ 10 milhões, o projeto foi cancelado ainda em 2013, principalmente por críticas de arquitetos que julgaram que a obra seria prejudicial à paisagem do porto. Uma alternativa, com formato diferente chegou a ser estudada, mas não foi levada adiante. Enquanto isso, a movimentação de navios de passageiro no Rio caiu pela metade em relação aos últimos cinco anos, muito pela operação problemática no terminal de passageiros da cidade.

O grande e chamativo Museu do Amanhã não desagradou os arquitetos, e a solução original, praticamente pronta, para o problema de espaço de atracação de navios de passageiro no porto do Rio de Janeiro, é ocupada agora por um museu. Apoiado também pela Fundação Roberto Marinho, que é inclusive o grande parceiro e apoiador da prefeitura para a obra, o Museu foi inaugurado no primeiro semestre deste ano.

Instrumentos culturais tem benefícios indiscutíveis. Mas má administração pública, falta de planejamento, além de gasto excessivo e controverso de gastos públicos, são problemas maiores que a falta de museus, especialmente quando eles prejudicam uma indústria inteira, que também indiscutivelmente, trazia benefícios ao Rio de Janeiro como cidade.**

** Romildo Emanuel é micro-empresário no centro do Rio, e lida com o mercado de cruzeiros e trabalha com o mercado de cruzeiros durante a temporada local. 

Imagens (©) Copyright Cunard (Queen Mary), Daniel Capella e David Iliff (Valência).

1 Comentário:

Anônimo disse...

Gostaria de ver um estudo sério comparando o potencial verdadeiro de geração de empregos e recursos ligados ao museu já instalado e o esquecido e desprezado projeto do porto de atracação alinhado aos outros comuns ao redor do mundo. Várias cidades se beneficiam dessa indústria produzindo inúmeras vantagens numa cadeia gigantesca de pessoas e empresas envolvidas direta ou indiretamente no processo. Numa recente visita a uma pequena ilha caribenha chamada Grenada a bordo do Msc Divina, me chamou a atenção a quantidade de comentários dos locais dizendo que a presença dos navios representavam uma benção a economia e a vida das pessoas. Em mais quatro ilhas da região esse era um ponto comum independente do tamanho e estrutura de cada uma delas. Aqui parece que o único objetivo é o político ou financeiro para alguns, uma vez que os argumentos usados a época para inviabilizar um projeto parece ser totalmente desconsiderado na aprovação de outro. Li até que os navios iriam bloquear a vista de alguns pontos históricos da paisagem. O referido museu tambem deve obstruir tal vista, que sinceramente deve ser bem menos importante do que a visão de todos para uma quantidade enorme de sujeira em nossas águas . A bordo de pelo menos sete cruzeiros, sem excessão passei vergonha diante de visitantes estrangeiros.


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